Adoção de cães idosos: o que esperar
Cães idosos são os últimos a sair dos abrigos e, muitas vezes, os mais fáceis de conviver. O que conta como idoso, as vantagens, a saúde dita sem rodeios e os programas que ajudam.
O que conta como cão idoso
A adoção de cães idosos é a parte menos falada de qualquer abrigo e, para muita gente, a mais recompensadora. Antes de pesar prós e contras, vale saber de quem estamos falando, porque "idoso" não tem uma idade fixa em cães.
Associações veterinárias definem a fase sênior como o último quarto da expectativa de vida do animal, e a expectativa depende do porte: cães grandes envelhecem mais rápido e vivem menos. Na prática, um cão pequeno entra na velhice por volta dos onze ou doze anos; um cão grande, por volta dos oito. Muitas clínicas tratam qualquer cão a partir dos sete anos como sênior, para começar os exames preventivos mais cedo, e centros municipais de adoção costumam considerar idoso o cão acima de oito anos nos programas de incentivo.
Isso significa que um cão "idoso" de abrigo pode ser um SRD de porte médio com oito anos, ativo, que ainda passeia bem e tem anos pela frente. A palavra assusta mais do que a realidade.
As vantagens que o filhote não tem
ONGs e protetores que trabalham com cães mais velhos repetem as mesmas vantagens, e todas vêm da mesma raiz: o cão idoso já é quem ele é.
- Porte e temperamento conhecidos. Não há surpresa de crescimento nem de personalidade. O que a ONG descreve é o que você leva para casa.
- Costuma saber as regras. Muitos cães idosos viveram em casas antes e sabem fazer xixi no lugar, andar na guia, ficar sozinhos algumas horas e conviver com pessoas. O que não sabem, aprendem: cães velhos aprendem tanto quanto filhotes com reforço positivo, só com menos pressa.
- Mais calmos. Pedem passeios curtos, dormem bastante e gostam de companhia tranquila. São ideais para famílias caseiras, pessoas mais velhas, quem trabalha em casa e quem quer um cão no sofá, não um atleta.
- Companhia imediata. Um filhote leva meses para virar um companheiro; um cão idoso costuma estar pronto para isso na primeira semana, assim que o medo passa.
- Eles precisam mais. Para muita gente, saber que tirou do abrigo o cão que mais dificilmente sairia dali é parte da satisfação.
Se você está entre um filhote e um adulto e quer uma comparação sem romantismo, o guia adotar ou comprar trata disso; e o quiz Qual pet combina com você? pontua um cão idoso para quem quer companhia calma e casa silenciosa.
Saúde e o que esperar, dito sem rodeios
Um cão idoso custa mais em veterinário e vai viver menos tempo com você do que um filhote viveria. Esses dois fatos precisam ser ditos de frente, porque é melhor saber antes do que descobrir no meio.
O que veterinários recomendam para a fase sênior:
- Consulta a cada seis meses, em vez de uma vez por ano, com exames de sangue e urina. Doenças de rim, fígado e tireoide são comuns em cães velhos e, quando pegas cedo, são controláveis por anos.
- Atenção a dor crônica e artrose. Um cão que hesita antes de subir no sofá, levanta devagar ou já não quer passear longe pode estar com dor, não com preguiça. Rampas, tapetes antiderrapantes em piso liso, cama macia e grossa, e remédio quando indicado mudam a vida dele.
- Dentes. Muitos cães idosos de abrigo chegam com tártaro e dentes doloridos. Um tratamento odontológico, feito com anestesia e exames prévios, costuma ser a intervenção que mais melhora a qualidade de vida, porque o cão volta a comer sem dor.
- Visão e audição que diminuem. Um cão que não ouve você chegar se assusta; aproxime-se pela frente e pise mais forte para ele sentir a vibração. Um cão que enxerga mal se orienta pela casa como ela está, então evite mudar os móveis de lugar.
- Remédios contínuos em alguns casos: para tireoide, coração, articulação. Têm custo mensal e exigem rotina.
A adaptação também pode ser mais lenta. Um cão de dez anos que passou os últimos meses num abrigo tem mais a desaprender do que um filhote, e a regra 3-3-3 descrita no guia dos primeiros dias em casa vale com folga: paciência nas primeiras semanas, rotina fixa e nenhuma exigência.
Sobre o tempo: pode ser um ano, podem ser cinco ou mais. Ninguém sabe, como ninguém sabe de um filhote. Quem adota um cão idoso costuma dizer que a despedida chega, dói, e que ainda assim foi a melhor escolha que fez. Se isso pesa demais para você, não é motivo de culpa; escolha um adulto jovem. Se não pesa, há um cão esperando.
Por que são os últimos a serem escolhidos
A preferência de quem adota é por filhotes, e isso faz com que cães adultos e idosos fiquem muito mais tempo em abrigos. Pesquisas do setor mostram que a maioria dos animais abandonados no Brasil são cães adultos sem raça definida; os idosos estão no fim dessa fila. Em países onde abrigos praticam eutanásia por falta de espaço, os sêniores são os primeiros a serem sacrificados, e a taxa de adoção deles é uma fração da dos filhotes. Aqui, onde a maioria das ONGs não sacrifica, o resultado é um cão que envelhece ainda mais num canil ou num lar temporário, à espera de alguém.
Os motivos são compreensíveis e, em geral, baseados em ideias que este guia tentou corrigir: medo de gastar com veterinário, medo de uma despedida próxima, a crença de que cão velho não aprende, a vontade de "criar desde pequeno". Nenhum deles é desprezível, mas nenhum resiste a uma conversa com quem já adotou um cão idoso.
Há outra razão, prática: muitos cães chegam idosos ao abrigo porque o tutor anterior morreu ou foi para uma instituição, e a família não quis ou não pôde ficar com o animal. São cães que viveram a vida inteira em casa, educados, acostumados com sofá e colo, e que de repente estão numa baia. Esses cães se adaptam depressa quando alguém os leva, porque sabem o que é um lar.
Programas que ajudam a adotar um cão idoso
Para compensar a desvantagem, várias iniciativas existem e vale procurar as da sua cidade.
Sênior para sênior. ONGs e prefeituras mantêm programas que aproximam cães idosos de pessoas idosas, às vezes com apoio em ração, consultas ou transporte. A lógica é simples: ritmos compatíveis, companhia para quem passa o dia em casa e um cão que não exige corrida.
Cartão de atendimento veterinário público e vitalício. Algumas cidades oferecem, a quem adota um cão ou gato idoso no centro municipal de adoção, um cartão que dá atendimento prioritário e vitalício nos hospitais veterinários públicos, cobrindo consultas, exames e cirurgias. Isso tira da conta justamente o item que mais assusta. Pergunte no CCZ ou no centro de adoção da sua cidade se há algo assim.
Isenção de taxa e apoio das ONGs. Muitas ONGs dispensam qualquer contribuição na adoção de idosos, e algumas mantêm o apoio veterinário por um período, pagam exames iniciais ou doam remédios do estoque. Padrinhos e madrinhas, pessoas que ajudam a custear um cão específico sem levá-lo para casa, às vezes continuam ajudando depois da adoção.
Lar temporário permanente. Para cães muito velhos ou doentes, algumas ONGs oferecem um modelo em que você dá o lar e a ONG continua responsável pelos custos veterinários. É uma forma de ter o cão em casa sem o peso financeiro, para quem tem tempo e carinho mas orçamento curto.
Como é o processo e para quem faz sentido
O processo é o mesmo de qualquer adoção, descrito no guia como adotar um cachorro: formulário de interesse, entrevista, às vezes visita, termo de adoção e acompanhamento. A diferença é que a ONG tende a ser mais flexível em alguns critérios para um cão idoso (apartamento sem quintal é ótimo para ele) e mais atenta em outros, como a condição de arcar com veterinário.
Pergunte à ONG o que ela já sabe da saúde do cão: exames feitos, remédios em uso, histórico de dentes e articulações. Uma ONG séria conta tudo, inclusive o que não é bonito. Leve o cão ao veterinário na primeira semana para um check-up completo, mesmo com exames da ONG, e combine com o profissional um plano de acompanhamento.
A adoção de um cão idoso faz sentido para quem quer companhia calma, passa boa parte do dia em casa ou trabalha de casa, tem orçamento para um veterinário a cada seis meses e aceita, de olhos abertos, um tempo de convivência mais curto. Para quem se encaixa nisso, poucas escolhas dão tanto em troca de tão pouco: um cão que já sabe viver em casa, que dorme no sofá ao lado e que, muito provavelmente, ninguém mais levaria.