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Primeiros dias em casa com o cão ou gato adotado

A adaptação de um animal adotado leva semanas, não horas. O que comprar antes, a regra 3-3-3 para cães, o cômodo base para gatos e como apresentar crianças e outros animais.

Compre o essencial e prepare a casa antes da chegada

Os primeiros dias em casa decidem boa parte de como vai ser a convivência com um cão ou gato adotado, e eles começam antes de o animal chegar. Com a casa pronta, você pode dedicar o dia da chegada ao que importa: ficar quieto e deixar o animal se situar.

Para os dois:

  • Cama, comedouro e bebedouro.
  • A mesma ração que o animal comia na ONG ou no lar temporário. Pergunte a marca e o tipo; trocar de ração de uma vez causa diarreia, e um animal estressado já está propenso a isso. Se quiser mudar, misture aos poucos ao longo de uma semana ou mais.
  • Caixa de transporte rígida. Para gatos é obrigatória no dia da adoção; para cães pequenos, muito útil.
  • Brinquedos e escova.

Para o cão: coleira com plaquinha com o seu telefone, guia e peitoral; tapete higiênico se mora em apartamento. Para o gato: caixa de areia (uma por gato mais uma), areia e arranhador, e as telas de proteção já instaladas, porque sem elas a ONG não entrega.

Depois, olhe a casa com os olhos de um animal curioso: fios ao alcance, plantas tóxicas (lírios são mortais para gatos; comigo-ninguém-pode e espada-de-são-jorge fazem mal aos dois), objetos pequenos que podem ser engolidos, lixo sem tampa, remédios e produtos de limpeza em armário baixo. Guarde, tampe ou suba de lugar.

Se ainda está escolhendo o animal, o quiz Qual pet combina com você? ajuda a definir o perfil. Se ainda não passou pelo processo de adoção, os guias como adotar um cachorro e como adotar um gato explicam o formulário, a entrevista e o termo de adoção.

Dê ao cão três dias para descomprimir, três semanas para aprender a rotina e três meses para se sentir em casa

Abrigos e adestradores de fora do país usam uma regra que ainda é pouco conhecida em português: a regra 3-3-3. Ela descreve as três fases pelas quais um cão adotado costuma passar, e o número é uma referência, não um cronômetro. Alguns cães levam seis meses ou um ano para completar o ciclo; outros, menos. O valor da regra é ajustar a sua expectativa.

Três dias para descomprimir. O cão acabou de perder tudo o que conhecia e chegou num lugar cheio de cheiros e pessoas estranhas. Nesses dias ele pode não comer, se esconder embaixo de um móvel, dormir demais, ter acidentes dentro de casa, parecer apático ou agitado. Nada disso é a personalidade dele; é medo. O que fazer: ambiente calmo, sem visitas, sem festa, sem apresentar o cão para a vizinhança inteira. Ofereça comida e água, mostre onde é a cama e o lugar de fazer xixi, e deixe que ele venha até você.

Três semanas para aprender a rotina. Com o medo diminuindo, a personalidade começa a aparecer, e com ela podem surgir comportamentos que não existiam na primeira semana: latir, puxar a guia, roer, testar limites. É normal e é o momento certo para a rotina fixa: passeio, refeição e sono nos mesmos horários todos os dias. Rotina previsível é o que mais acalma um cão. Construa vínculo primeiro; adestramento formal pode esperar.

Três meses para se sentir em casa. A confiança se consolida, o cão entende que aquela é a casa dele e que você volta quando sai. Só aqui você conhece de fato o cão que adotou.

Erros comuns, todos compreensíveis: esperar normalidade imediata; apresentar muita gente e muitos lugares de uma vez; permitir algo no começo (subir no sofá, dormir na cama) e proibir depois, o que confunde; ignorar sinais de estresse como ofegar sem calor, andar de um lado para outro, lamber os lábios, bocejar fora de hora ou se afastar. Quando vir esses sinais, reduza o estímulo e dê espaço.

Comece o gato em um único cômodo e abra a casa aos poucos

Gato não explora uma casa inteira no primeiro dia; ele se esconde nela. Por isso o método que ONGs de gatos e organizações felinas recomendam é o cômodo base: um quarto silencioso, sem rota de fuga para fora, onde o gato passa os primeiros dias.

Nesse cômodo ficam a caixa de areia, longe da comida e da água; o arranhador, de preferência perto da porta; a cama, se possível com uma manta que traga o cheiro do lugar de onde ele veio; dois ou três esconderijos, como uma caixa de papelão deitada e um espaço embaixo da cama; água e comida. Ao chegar, coloque a caixa de transporte no chão, abra a porta e saia de perto. O gato sai quando quiser, às vezes horas depois. Não pegue no colo toda hora, não puxe de debaixo do móvel, não traga visitas para conhecer.

Os sinais de que está pronto para explorar: vem cumprimentar quando você entra, corpo relaxado e rabo erguido, mais vocal, começa a parecer entediado no quarto. Então abra a casa cômodo a cômodo, um por vez, mantendo o quarto base como refúgio por mais algumas semanas. A caixa de areia pode ser movida depois, aos poucos, se precisar.

Apresente o gato residente devagar, começando pela troca de cheiros

Dois gatos que se conhecem mal não se tornam amigos por serem colocados juntos. A regra é "pouco e sempre", em etapas, e cada etapa só avança quando a anterior está tranquila.

  1. Separação total por pelo menos uma semana. O gato que chega fica no cômodo base; o residente mantém o resto da casa. Eles se ouvem e se cheiram por baixo da porta, e isso já é a primeira apresentação.
  2. Troca de cheiros. Troque as mantas de um e de outro; esfregue um pano no rosto de um gato e deixe perto da comida do outro, para que o cheiro do outro vire sinônimo de coisa boa.
  3. Contato visual com barreira: porta entreaberta com trava, ou uma grade. Sessões de cinco a dez minutos, com petisco para os dois, encerradas antes que alguém se irrite.
  4. Encontros curtos sem barreira, supervisionados, com rotas de fuga e lugares altos para os dois. Aumente o tempo conforme a tranquilidade.

Rosnados e bufos nas primeiras etapas são comunicação, não fracasso. Volte uma etapa e tente outra vez. Caixas de areia: o número de gatos mais uma, espalhadas pela casa, para que ninguém precise disputar.

Se o animal que chega é um cão e há gato em casa, o cão fica na guia nas primeiras apresentações, o gato tem rota de fuga e lugar alto, e as sessões são curtas.

Apresente o cão residente em território neutro e separe os recursos em casa

Com dois cães, o primeiro encontro não deve ser dentro de casa, que o residente considera território dele. Marque na rua ou numa praça, cada cão com uma pessoa e na guia, e caminhem em paralelo, a alguns metros de distância, sem forçar contato. Deixe que se aproximem e se cheirem quando ambos estiverem relaxados, com as guias frouxas. Depois entrem juntos em casa.

Dentro de casa, separe recursos: duas camas, dois comedouros em lugares diferentes, nada de brinquedo ou osso disputável nas primeiras semanas. Supervisione o tempo todo nos primeiros dias e separe quando você sair, mesmo que pareçam amigos. Energia compatível ajuda: se o residente é idoso e calmo, um cão que chega com energia alta vai precisar gastar essa energia em passeio antes de conviver.

Combine as regras com as crianças e nunca deixe as menores sozinhas com o animal

A maior parte das mordidas em crianças acontece em casa, com um cão conhecido, e quase sempre quando um adulto não estava olhando. Isso não significa que cão e criança não combinam; significa que a supervisão é do adulto, não da criança.

Antes de o animal chegar, combine as regras com as crianças: o animal precisa de descanso e não se acorda quem está dormindo; não se pega no colo, não se puxa rabo nem orelha, não se chega perto da comida enquanto ele come, não se abraça pelo pescoço. Mostre como acariciar: mão aberta, no peito ou nas costas, deixando o animal se aproximar primeiro.

Crianças com menos de dez anos nunca ficam sozinhas com o animal, nem por um minuto, e isso vale para o gato também. A regra prática que educadores de bem-estar animal resumem em três palavras: fique perto, intervenha, separe. Fique perto o bastante para ver; intervenha ao primeiro sinal de incômodo (o cão vira a cabeça, lambe os lábios, mostra o branco dos olhos; o gato abaixa as orelhas, bate o rabo); separe antes que escale, sem bronca, só retirando a criança.

Leve o animal ao veterinário na primeira semana

Mesmo que a ONG tenha entregado tudo em dia, marque uma consulta na primeira semana. Veterinários recomendam isso por motivos simples: um exame geral; o peso de referência, para você saber se ele está engordando ou emagrecendo depois; a conferência da carteira de vacinação e do vermífugo, com o calendário dos reforços; o planejamento da castração, se o animal ainda é filhote e ela ficou pendente; o microchip, se não tem. Para gatos, confirme se o teste de FIV e FeLV foi feito e documentado.

Leve a carteira de vacinação e qualquer documento que a ONG entregou. Essa consulta também é o início da relação com o veterinário que vai acompanhar o animal pela vida inteira, e um cão idoso ou um gato adulto pode precisar de uma conversa sobre exames mais frequentes; o guia sobre adoção de cães idosos explica o que muda com a idade.

Se algo nos primeiros dias parecer errado, o animal não come por mais de um dia, não bebe água, se esconde sem sair, tem diarreia persistente, fale com a ONG e com o veterinário. Quem resgatou conhece o animal e quer que dê certo tanto quanto você.

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